Letras escarlates, estrelas amarelas
Os primeiros sinais já tinham sido ouvidos ora aqui ora acolá, mas o fenômeno ganhou força, de fato, durante a crise do Pinheirinho.
Ele atende por um nome simples: intolerância.
E se traduz na incapacidade de ouvir e respeitar uma opinião contrária, de responder um argumento com outro, a tratar quem tenha ponto de vista diferente do seu não como inimigo, mas sim como semelhante. Esse fenômeno tomou conta das redes sociais, das seções de carta dos jornais, das rodinhas de bate-papo, transformando tudo em um Fla-Flu ideológico onde a ordem é ofender, atropelar, calar quem pensa diferente. Para definir o fenômeno, intolerância é a palavra menos ofensiva.
Depois de tantos descaminhos causados por ela no século 20, será a intolerância a cara deste século 21?
Apagão. Uma rápida olhada nos sites e nas redes sociais serve para constatar que a lição iluminista de Voltaire foi enterrada. “Não concordo com as suas palavras, mas defendo até a morte seu direito de dizê-las”, disse Francois-Marie Arouet, cunhando um pensamento-chave do que viria a se tornar o moderno Estado Democrático.
Coitado: no Fla-Flu ideológico, Voltaire foi para a cucuia.
Em uma das reportagens mais lidas do site de OVALE no dia da desocupação do Pinheirinho, 22 de janeiro, havia 576 comentários de internautas, dos quais 200 eram troca de insultos e ameaças.
Pior: nos dias seguintes, o bate-boca não diminuiu. Ao contrário. Virou uma luta de guerrilha e chegou até aos sites oficiais. Em um ato sem precedentes, o blog oficial da Prefeitura de São José foi usado para perseguir e atacar uma voz contrária à voz oficial. Papelão! E a Agência Brasil, mantida pelo governo federal, passou pelo vexame de pedir desculpas por divulgar boatos sobre mortes na reintegração do Pinheirinho. Papelão maior ainda!
Qual o resumo da ópera?
São José virou cidade dividida em grupos inimigos, não mais só adversários políticos –com ideias diferentes, sim, mas parceiros no jogo democrático.
Voto. Esse clima pode contaminar as eleições municipais. Seja favorito o PSDB, o PT ou qualquer outro pê da sopa de letrinhas partidária brasileira, São José tem o desafio de definir, tendo como baliza a eleição de 7 de outubro, um novo modelo de cidade.
Debater isso em clima de futebol do Egito é o fim da picada.
As lideranças dos principais partidos desta disputa –como Emanuel Fernandes e Carlinhos Almeida– têm a responsabilidade de evitar isso.
Ou a intolerância vai ganhar terreno. Em breve, quem pensar diferente vai ganhar uma inicial –virtual ou não– bordada em vermelho na roupa, como em ‘A Letra Escarlate’, o romance de Nathaniel Hawthorne, levado ao cinema por Roland Joffé em 95, com a bela Demi Moore.
Neste domingo de Carnaval, pode até parecer fantasia.
Não é. Letras vermelhas impostas pela fé, estrelas amarelas impostas pelos nazistas. Não importa cor ou forma, a intolerância, monstro insistente, ignora que em sociedade somos diferentes, embora sejamos, por princípio, todos iguais.