No Caminho de Swan

Um biscoitinho e uma xícara de chá serviram para Marcel Proust criar as bases do romance moderno.
Simples assim, mas com um sabor inesquecível.
A bolachinha de farinha, manteiga clarificada, açúcar, fermento e raspas de limão deu origem a um mergulho na alma humana e a uma das mais significativas obras da literatura mundial.
Nunca fui dado a colecionar madeleines, ter saudades de anos dourados, edulcorar o passado. Para mim, o passado é apenas o trampolim do presente e do futuro. É preciso compreendê-lo bem, estudá-lo, aprender com ele, mas para extrair lições para a construção do nosso tempo, das nossas ideias. Pois bem, essa visão lógica e tecnicista sofreu um agradável abalo há algumas semanas quando fui descoberto, no universo do facebook, por colegas de ginásio –para os mais jovens, ginásio era a parte final do que hoje é o ensino fundamental. Esse grupo de ginasianos dos anos 60, 70 foi o biscoito mágico que me fez reencontrar colegas, redescobrir amigos e amigas que não via há anos, rever professores, ao som de muita música. Muitos gostam de lembrar do passado. Outros, gostam do reencontro, da descoberta de antigos rostos.
A vida é assim: uma sucessão ininterrupta de fatos, nomes, rostos, histórias. Momentos bons, momentos ruins, alguns momentos  maravilhosos. Este, dos amigos, um momento simplesmente maravilhoso.

Tecnologia. Unir pessoas é uma das características da tecnologia dos tempos modernos.
Muita gente olha isso com desconfiança: afinal, que rostos se escondem nessa rede virtual? Mas a tecnologia, em si, não é ruim. Ruim pode ser o mau uso da tecnologia.
Isso remete a dois temas que tem ocupado tempo e espaço em São José nos últimos meses: a liberação da extração de areia do rio Paraíba e a instalação de uma termelétrica na cidade. Ambos têm a ver com isso: a tecnologia e seu uso. E ambos têm a ver com política, a razão inicial desta coluna.
No caso da extração de areia, que vem sendo debatida na Câmara, trata-se de ausência de tecnologia. A atividade é primitiva e a tecnologia que poderia ser usada para minimizar seu impacto ambiental é praticamente zero. Diretor do Sindareia, Walter Toscano considera essa argumentação preconceituosa.
Sua opinião tem de ser ouvida, mas discordo dela.
Além disso, o grau de desperdício da atividade é grande e não há política de recuperação dos resíduos da construção civil –o que, por si só, geraria matéria prima. Mas custa dinheiro. Resumindo, esse é um caso onde falta tecnologia. Ou ela não é usada.

Energia. No caso da usina, a roda girou para o outro lado.
A resistência a projetos desse porte teve um efeito prático ao longo dos tempos –ajudou a aprimorar a legislação ambiental e a gerar tecnologia de controle de emissão de material na atmosfera. Esse é um tema que vale a pena ser debatido, tem fundamento técnico e não pode ser decidido no Fla-Flu ideológico, nem no cara ou coroa.
Esse é um campo onde existe tecnologia, falta garantir controle da comunidade.
Mas, afinal, o que tudo isso tem a ver com Proust? Bem, se daqui a 10, 20 anos, alguma madeleine fizer a sociedade olhar o passado, a eventual liberação da extração de areia tem tudo para ser vista como um biscoito amargo, digerido em nome do falso progresso. Será um tempo perdido, irremediavelmente perdido.

5 Comentários para “No Caminho de Swan”

  1. Joao Leite de Souiza  em setembro 19th, 2011

    Oi Helcio , como diz o velho ditado ” recordar e viver ” esta nossa experiencia que tao brilhantemente voce comenta tem sido algo expetacular !!! Obrigado pela amizade !!! Um abraco

  2. Maria Elisa Costa Gomes de Sant'Anna  em setembro 19th, 2011

    Fiquei super emocionada com a homenagem!
    Um passado com gosto de presente para saborear no futuro tão proximo…um momento maravilhoso e tanto!!
    Obrigada Helcio e que DEUS sempre te ilumine…
    Grande abraço

    Elisa

  3. Dalva F. Machado  em setembro 20th, 2011

    Helcio você traduziu nossos sentimentos de forma inocente como éramos…amizade com laços que não tínhamos idéia que existia.Você é um dos frutos da árvore boa plantada naqueles anos. Abração.

  4. Adelaide Del Grande  em setembro 20th, 2011

    “Este, dos amigos, um momento simplesmente maravilhoso.”
    O momento é maravilhoso porque você faz parte dele.
    Beijos

  5. Manoel  em setembro 22nd, 2011

    Helcio, as discussões sobre retomada da extração de areia na cidade vai entrar e sair da agenda de tempos em tempos. O que se fez neste quesito na cidade serve de exemplo para não retomada e muito mais que isso, na desconfiança de que os empresários agora farão diferente. Tenho uma proposta aos empresários: primeiro unam-se e recuperem o passivo ambiental que existe hoje, independente de quem o causou, com recursos dos próprios empresários, depois voltamos a conversar e determinar limites para a extração. Com relação a usina do lixo a questão é o médio e longo prazo. Para evitar que o controle ambiental caia ao longo do tempo, como é comum nestas atividades, sugiro que o poder publico exija da concessionária que faça um aporte anual para manter a tecnologia em dia, investindo todo ano no up-grade para reduzir sempre as emissões e o incomodo a população. Isto vai de encontro aquilo que voce falou, que é o controle publico da atividade.


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