O Menino Jesus da Praça Afonso Pena
Desde a meia-noite de sábado, um novo personagem integra a paisagem do centro de São José, deitado bem de frente para a praça Afonso Pena.
Pequeno, de fibra de vidro, ele quase nem é notado.
Pudera: hoje, domingo de Natal, o centro está ainda mais vazio, um domingo com cara de ressaca da correria dos últimos dias. Pior: amanhã, quando a cidade voltar ao normal, esse pequeno boneco pintado será eclipsado pela pressa da segunda-feira, pelo grito dos ambulantes, pelo vaivém de carros e ônibus que cruzam sem parar as ruas ao redor da praça.
Apesar disso, é em torno desse personagem que a festa de hoje acontece.
Pela fé cristã, ele é o próprio filho de Deus, que assumiu face humana para redimir os pecados do mundo. Numa visão menos religiosa e mais filosófica, simboliza o ciclo da vida, o eterno recomeço, o princípio, o fim e o meio.
Hoje, sua representação em fibra de vidro frita ao mormaço escaldante do centro. Amanhã, a magia do Natal, que moveu céus e terras nos últimos dias, multidões de loja em loja, lotou templos e igrejas ontem, nas missas e ritos de Natal, terá passado.
E o boneco passará a contar os segundos até 6 de janeiro, Dia de Reis. No dia seguinte, ele será encaixotado por um ano. Até o Natal de 2012, quem sabe. Quem sabe para sempre, se mudar a decoração em 2012.
Babilônia. É emblemático que o presépio fique em uma esquina do centro. A Afonso Pena é nossa Torre de Babel, o endereço onde convergem, por necessidade ou por acaso, todas as raças, credos, classes sociais. Trabalhadores, famílias, estudantes, crianças de rua, camelôs, prostitutas, pipoqueiros, policiais e mendigos.
(Nos shoppings, paraísos do consumo, quem comanda a festa é a figura do Papai Noel)
Na confusão do centro, o presépio –como o personagem principal vai saber, a partir de hoje– também é pouco notado.
A prostituta de cabelo tingido de loiro só notou o presépio montado quando veio a noite e uma cascata de luz foi acesa atrás das figuras coloridas de José, Maria, Reis Magos, anjo e pastores. O menino de rua magrelo, de cabelos encaracolados, tamanho de 8, mas 10 anos confessos, nem isso viu. Presépio? Num dia de calor, estava mais interessado em tomar banho nos esguichos d’água da praça. Não, não vi, responde.
Ignorado?
Não terá sido assim na noite dos tempos, quando, segundo reza a tradição católica, um menino pobre veio à luz ao lado de bois e vacas, em uma terra marcada pela aridez e pela desesperança?
Milagre. Ignorado, o que pode observar o boneco de seu canto? Gente apressada, sem tempo. Tomara pudesse observar além de nós e enxergar não o que somos, mas o que poderíamos ser: pessoas mais solidárias, mais abertas ao próximo, mais pacíficas, melhores no dia-a-dia. Cheias de esperança.
Seria um milagre de Natal, ali, na esquina da praça.
Melhor ainda seria se nós pudéssemos nos ver assim, pelos olhos dele. O boneco, enfim, poderia ser guardado em paz, a vida poderia ser mais simples e poderíamos viver o Natal nos 365 dias do calendário.