Os Comanches do Legislativo
John Wayne já dizia: com os vereadores de São José, todo cuidado é pouco.
John Wayne?
Explico: em 1956, sob a direção do mestre John Ford, o Duke foi protagonista de “Rastros de Ódio”, um western considerado pelos franceses do nouvelle vague –entre eles, François Truffaut e Alain Resnais– como um dos 10 melhores filmes da história do cinema e que tem em Steven Spielberg um de seus maiores fãs. No papel de Ethan Edward, um caubói durão, ele explica como se manter no encalço de um grupo de índios que havia raptado sua sobrinha e matado sua família: os comanches da tribo nawyecky –diz ao jovem Martin Pawley, vivido por Jeffrey Hunter– são os mestres do despiste, fingem que vão para a esquerda e aparecem, em seguida, na nossa direita. É isso aí.
E daí? Em parte, os vereadores de São José são como os comanches dos velhos e caricatos filmes de caubói: ciscam mais que um ponta-direita de antigamente.
No caso do reajuste dos salários (ou subsídios, termo tecnicamente correto) para a Legislatura 2013, isso fica bem evidente: queriam 80%, o teto do que permite a regra legal, guardaram o projeto a sete-chaves, foram emparedados com a reação popular e agora juram que mudaram de ideia, acenando com uma pura e simples revisão do salário pela inflação.
Fim de caso?
Longe disso. Um grupo atuante de vereadores, encabeçado por Valdir Alvarenga (PSB) e Fernando Petiti (PSDB), bate o pé agora em 60% (R$ 13,4 mil). E tem gente que ainda sonha com os 80% –o que catapultaria os salários dos atuais R$ 8.320 para R$ 15 mil. Quando a história termina?
Quando for aprovado em plenário o projeto que define o subsídio dos vereadores da próxima Legislatura, fixado em R$ 10,1 mil –levando em conta a reposição da inflação.
Perigo. Antes disso, vai que baixa um espírito comanche na Casa, como ocorreu na última quinta-feira, quando, sem aviso, a Mesa da Câmara protocolou projeto que eleva o número de cadeiras no Legislativo de 21 para 23 em 2013 e encerrou a sessão em seguida, sem tempo para debates.
Da Câmara, é bom confiar desconfiando. Ou melhor, é bom desconfiar sempre.
Reação. Conhecedor dos bastidores da Câmara, o ex-vereador Jorley do Amaral (DEM) acha que o Legislativo sofre desgaste desnecessário. Será?
Ao longo dos anos, a Câmara se distanciou de seu papel original, virando apêndice do Paço. Para os vereadores, essa prática é a correta. Basta olhar, dizem alguns, sem pudor, o índice de reeleição para a Câmara em 2008. Mas é pouco.
Os vereadores estão irritados com a pressão sobre eles –exercida por empresários, grupos religiosos, estudantes, sindicatos, entidades de classe e imprensa. Muitos ficaram contrariados com o protesto dos estudantes na última quinta-feira, que levaram bananas para as galerias da Casa.
Mas não foram eles, os comanches do Legislativo, que primeiro deram uma banana à sociedade?
Agora, sobrou esse abacaxi a sociedade para descascar.
3 Comentários para “Os Comanches do Legislativo”
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Manoel em agosto 24th, 2011
Olá Helcio,
concordo com voce. acho muito dificil que os nossos edis desistam de votar o aumento em seus salarios. e eles realmente trabalham com percentual alto de reeleição. são josé parece que trabalha com uma formula para isto, muitos chamadores de poucos votos e os caciques sempre ganham. acho que temos que nos debruçar sobre uma forma para manter o foco negativo destes caras durante a campanha. não sei como, mas a forte reação popular (manifestação politica) que tivemos talvez seja um indicio de que temos chance de enquadrar esta moçada. além da imprensa, precisamos da sociedade organizada, mas isto acho dificil. de forma geral todos estamos olhando pro nosso umbigo. de qq forma, parabens ao jornal por encampar este assunto.
Margarita em agosto 31st, 2011
Os vereadores fazem tudo isso porque sabem que serão reeleitos nas próximas eleições. Os eleitores desconhecem a lei eleitoral; desconhecem que ao votar em um candidato, outro é que será empossado. É preciso que os meios de comunicação esclareçam os eleitores sobre as ‘ciladas’ do nosso sistema eleitoral.
Thereza em setembro 1st, 2011
Conhecendo o editor,Helcio Costa,sei que ele não seria tão deselegante assim.Já,uma simples leitora poderá fazer um trocadilho com a manchete
em vez de “Os Comanches do Legislativo” melhor seria”Os Com Merda do Legislativo”