Os vereadores são eternos?
O escritor inglês Ian Fleming criou 007, o espião com licença para matar.
Nós, eleitores, criamos os vereadores de São José, que acreditam ter licença para fazer o que der na telha –de tentar liberar a extração de areia em São José a mudar o Zoneamento da cidade para ajudar algum amigo, passando por reajustar seus próprios salários a partir de cálculos de matemágica, prova que números e cálculos podem chegar a qualquer lugar, desde que torturados.
Essa é uma verdade doída, caro leitor: essa Câmara –alvo de críticas, protestos e deboche– é fruto da expressão política dos eleitores de São José. Traduzindo: esse monstro foi criado por nós. Não por mim ou por você, leitor, sozinhos. Mas pela somatória das nossas ações ou das nossas omissões.
Você pode não ter votado, em 2008, por exemplo, em Alexandre da Farmácia (PP), mas 5.831 eleitores de São José garantiram sua presença na Câmara. O mesmo vale, por exemplo, para Dulce Rita (PDSB), eleita com 5.816 votos, Valdir Alvarenga (PSB), com seus 7.227 votos, e Robertinho da Padaria (PPS), com seus 7.318 votos.
A Câmara de 2004-2008 era muito ruim. Mas 17 vereadores dela permanecem na Câmara atual. Alguém votou neles. Pior: fomos nós, caro leitor, direta ou indiretamente.
Martini. Criação de Ian Fleming, o agente 007, do MI-6, tem um certo charme.
Bond, James Bond, fala ao se apresentar. Bebe vodka-martini mexido, nunca batido e já teve o rosto de Sean Connery, Roger Moore, Pierce Brosman e Daniel Craig. Além, é claro, de sempre estar cercado por alguma bondgirl poderosa.
Nossos vereadores não têm tanta sorte.
Mas têm um ponto forte: desfrutam de um sistema de apadrinhamento político criado no primeiro governo Emanuel Fernandes (PSDB) e idealizado pelo então vereador Jorley do Amaral (DEM), que garante aos vereadores fatias do Orçamento e decisão sobre obras em seus redutos eleitorais.
Batizado de parlamentarismo municipal, ele oficializou o toma-cá-dá-lá entre o Paço e a bancada governista. E garantiu a estabilidade no emprego para muitos vereadores. Funciona como uma mira para James Bond nenhum botar defeito.
E daí? Por isso, caro leitor, vale seu protesto, sua carta, colar o adesivo do BOM DIA, qualquer ato contra o reajuste dos salários. Esse exercício de cidadania tem surtido efeito, a ponto de os vereadores estarem dispostos a revogar os supersalários. Mas não basta.
Quantos eleitores se lembram, por exemplo, em quem votaram para vereador em 2008?
Pois é: esse voto muitas vezes descartável, outra vezes interesseiro cobra sua conta. Seja no golpe dos salários, nos gastos excessivos, no bom e velho nepotismo cruzado. O custo da Câmara é de pelo menos R$ 14,7 milhões por ano. É muito dinheiro para entregar assim, de mão beijada.
Mas, nesse caso, nós, eleitores, somos os 007: temos a licença para matar, pelo voto, a carreira de qualquer vereador espertalhão. Não é fácil, mas basta não perder o foco. Em 2012, por exemplo, tem eleição …
2 Comentários para “Os vereadores são eternos?”
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Marco Aurélio de Mattos Carvalho em outubro 18th, 2011
Hélcio, parabéns por abordar esse tema.
Não podemos esquecer, ainda, que o Executivo é um dos principais responsáveis por essa reeleição, na medida em que criou, desde os anos 90 um sistema de intermediação de obras e melhorias fazendo-as passar obrigatoriamente pelo pedido de um vereador, ou seja, aquilo que é obrigação do Município fazer o contribuinte só consegue ou consegue mais rapidamente se algum dos vereadores for o padrinho da obra.
Essa fidelização cidadão-obra-vereador-Prefeitura é o grande vilão dessa situação precária do nosso legislativo.
Manoel em outubro 18th, 2011
Helcio,
Voce foi feliz ao dizer que no próximo ano tem eleição e podemos começar a mudar este cenário. Só complemento para ficar bem claro, o ano que vem tem eleição, e não só para vereador. Este conluio que existe em São José entre executivo e judiciário não é só culpa do legislativo. Aliás esta é uma pratica comum em todos os niveis de governo, e arrisco-me a dizer que sempre foi assim. Governar com maioria é mais fácil. Tratar bem os “amigos” gera menos conflitos. Mas nós temos um papel nisto. Podemos trocar os amigos com maior frequencia e cobrar mais resultados daqueles que elegemos. Chega deste tipo de domínio que ocorre em São José e em tantos outros lugares do País. Sugiro a todos que nos esforcemos por trocar de vez estes “amiguinhos” que estão aí a quase 16 anos. Tá na hora deles procurarem outras coisas para fazer para levar arroz e feijão para casa deles.